Vínculos afetivos são essenciais para manutenção do bem-estar mental ao longo da vida

Ernesto Matalon
Por Ernesto Matalon

Nesta quinta-feira (20), o Brasil celebra o Dia Internacional da Amizade, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o propósito de propagar a cultura da paz e da convivência não-violenta. Além do significado dado à data pela ONU, existem diversos outros motivos para a celebração das nossas amizades. Uma perspectiva pouco analisada, mas muito importante, é a relação dos vínculos afetivos com a manutenção da saúde mental em todas as fases da vida. As amizades integram as redes de apoio, conceito que engloba os grupos de pessoas com quem nos relacionamos e oferecem ajuda, material e emocionalmente, quando necessitamos.

A formação da rede de apoio acontece desde a infância, que também é a fase responsável pela construção das noções de afeto e amizade para nós enquanto pessoa. Segundo Nádia Oliveira, psicóloga e professora da Wyden, as aprendizagens trazidas na infância são intelectuais e cognitivas: “A garantia de vínculos sociais sólidos neste período, onde ainda ocorre a maturação física e neurológica, é fundamental para o desenvolvimento de importantes habilidades cognitivas e sociais, apresentando impactos positivos nas demais fases do desenvolvimento.”, afirma.

Após a infância, as amizades construídas na adolescência trazem sentido nos processos de autoafirmação a partir do momento que se inicia o processo de construção da personalidade do indivíduo. Porém, pesquisas revelam que no Brasil a solidão é algo crescente entre os jovens. Segundo um estudo da Sociedade Brasileira de Pediatria, publicada em 2021, 15% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmam se sentir sozinhos. Em relação a este índice preocupante, Nádia entende que as razões para esse sentimento generalizado de solidão estão ligadas às pressões do modelo socioeconômico atual.

“O modus operandi da sociedade no século XXI é de uma sociedade que condiciona o indivíduo a buscar pelo sucesso e realização profissional como formas que ‘garantem’ o bem-estar e a realização pessoal […] além disso, é uma perspectiva que demanda mais precocemente dos adolescentes a certeza sobre a carreira e o futuro de ‘sucesso’ que almejam construir, ocasionando a pressão por uma produção constante”, aponta.

Além disso, a professora Wyden salienta, também, o contexto pós-pandemia, que trouxe riscos não apenas à saúde física, mas também ao bem-estar emocional. “Em um contexto de pandemia, esses sentimentos são potencializados, pois, além de estar privado das relações interpessoais de modo presencial, ainda foi presenciada a cobrança pela rápida adaptação e os mesmos índices de produtividade, sem levar em conta o contexto de crise que culminou no isolamento social, incertezas frente ao futuro e alto número de óbitos”, finaliza.

Na fase adulta, os vínculos afetivos aparecem como lugar de compartilhar os desafios. As afirmações e a segurança transmitidas nas nossas relações são fundamentais para demonstrar que nossos problemas não são tão grandes como imaginamos, sobretudo num país tão ansioso como o Brasil. Segundo informe divulgado pela Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o país com maior proporção na porcentagem de pessoas ansiosas: 9,3% da população.

Segundo Nádia, as redes de apoio são importantes para que o indivíduo se sinta acolhido ao compartilhar suas questões. “De um modo geral, a rede de apoio formada tanto por amigos como familiares que, principalmente, sejam capazes de acolher o indivíduo em sofrimento sem julgamentos é essencial nesse processo de enfrentamento de uma ansiedade, por exemplo”. Mas a psicóloga aponta que as redes de apoio, ainda que importantes, não ocupam o lugar do tratamento especializado com profissionais, sobretudo quando os sintomas representam um obstáculo maior na rotina do indivíduo.

Na 3ª idade, a rede de apoio ganha novos significados e uma importância ainda maior por ser uma fase em que o idoso questiona seu lugar na sociedade e seu valor enquanto indivíduo, contribuindo para o surgimento de sintomas de ansiedade e depressão. Um grupo de cientistas da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, realizou uma revisão sistema na bibliografia de estudos relacionados à saúde mental de idosos e constataram que as redes de apoio são mecanismos de suporte, ou até mesmo preventivos, nos casos de idosos com sintomas depressivos. Além disso, a pesquisa também identificou que idosos com mais de 75 anos com redes de apoio menores e com menos contato social tendem a desenvolver sintomas depressivos e ansiosos com mais facilidade.

Para Nádia, as amizades são essenciais na fase idosa. “Nessa fase do desenvolvimento é comum o surgimento de alguns desafios que podem acentuar o sentimento de solidão, como algumas perdas sensoriais, motoras, físicas e cognitivas. Assim sendo, os vínculos interpessoais nessa faixa desenvolvimental são importantes, pois proporcionam interações, sentido de vida e pertença, sendo estes importantes aspectos de promoção à saúde mental.”, afirma.

O Dia Internacional da Amizade é, também, um lembrete da importância dos relacionamentos que construímos. O ser humano, enquanto ser social, precisa das relações que estabelece para sobreviver, sentir-se completo e seguir se desenvolvendo ao longo da vida.

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