As oscilações hormonais podem ter relação com mudanças na resistência e na estabilidade do ligamento cruzado anterior (LCA), estrutura do joelho envolvida em movimentos como corrida, saltos, aterrissagens e mudanças rápidas de direção. A possibilidade é analisada em uma revisão destacada pelo American College of Sports Medicine (ACSM), que reúne trabalhos publicados na revista Current Sports Medicine Reports.
De acordo com o resumo divulgado pelo ACSM, as alterações nos níveis de estrogênio podem influenciar a atividade da lisil oxidase, enzima associada à formação e à organização das fibras de colágeno. Como o colágeno participa da composição dos ligamentos, mudanças nesse processo poderiam modificar propriedades do tecido e aumentar sua vulnerabilidade em determinadas situações de movimento.
O que a revisão investiga sobre o LCA
O LCA é essencial para ajudar a controlar a estabilidade do joelho durante ações que exigem desaceleração, rotação, aterrissagem e mudança de direção. Por isso, sua lesão é uma preocupação frequente em modalidades com saltos e deslocamentos intensos, mas o tema também interessa a praticantes de corrida, musculação e outros treinos que incluem movimentos de apoio unilateral ou controle do corpo sob carga.
A análise apresentada pelo ACSM não estabelece que o ciclo menstrual, por si só, determine a ocorrência de uma lesão. O foco está nos possíveis mecanismos biológicos que podem ajudar a explicar por que algumas atletas apresentariam maior vulnerabilidade em determinados períodos. Essa hipótese precisa ser interpretada junto a outros fatores que influenciam o risco, como fadiga, técnica de movimento, histórico de lesões, volume de treino e recuperação.
Essa ressalva é importante porque uma explicação exclusivamente hormonal pode simplificar um problema multifatorial. Mesmo que alterações no tecido ligamentar tenham relevância, a ocorrência de uma lesão depende da combinação entre as características individuais da atleta, as exigências da atividade e a forma como o movimento é realizado.
Prevenção deve combinar força e controle de carga
Entre as estratégias discutidas na revisão estão o treinamento neuromuscular, o fortalecimento dos membros inferiores, o controle da carga de exercícios e o acompanhamento individualizado. Na prática, programas preventivos podem incluir exercícios voltados à força, à estabilidade do quadril, ao controle do joelho e à propriocepção, sempre de acordo com o nível de treinamento e as necessidades de cada pessoa.
O objetivo dessas medidas não é oferecer proteção absoluta, mas melhorar a capacidade de controlar movimentos que aumentam a exigência sobre o joelho. A progressão dos exercícios também precisa considerar a recuperação e a resposta da atleta ao treinamento. Alterar volume, intensidade ou frequência apenas com base em uma fase do ciclo menstrual, sem avaliação profissional, não é uma conclusão autorizada pelo resumo divulgado pelo ACSM.
Para quem pratica musculação, corrida ou atividades com saltos, a prevenção pode ser integrada à rotina sem substituir o treino principal. Exercícios unilaterais, tarefas de equilíbrio e movimentos que exigem desaceleração controlada podem fazer parte de uma preparação orientada. A escolha, a execução e a progressão devem ser avaliadas por profissionais habilitados, especialmente quando existe dor, instabilidade ou antecedente de lesão.
Individualização evita interpretações simplistas
A revisão reforça a necessidade de investigar como fatores biológicos e esportivos se relacionam, mas não permite afirmar que todas as atletas apresentem o mesmo padrão de risco. A resposta hormonal varia entre indivíduos, assim como o histórico de treinamento, a técnica, a condição física e a tolerância à carga.
Por isso, o acompanhamento do ciclo menstrual pode ser uma informação adicional em uma avaliação esportiva, mas não deve ser tratado como um marcador isolado para decidir quando treinar, competir ou interromper uma atividade. O planejamento precisa considerar o conjunto de sinais apresentados pela atleta e as exigências específicas de cada modalidade.
A publicação do ACSM amplia o debate sobre prevenção de lesões no esporte feminino ao relacionar possíveis mudanças hormonais à organização do colágeno no LCA. Ainda assim, o caminho mais seguro é combinar conhecimento sobre o organismo, treinamento de força e controle motor, gestão adequada da carga e orientação individualizada. Em caso de dor, sensação de falseio ou suspeita de lesão, a avaliação de um profissional de saúde é necessária.
