Hedge de taxa de juros: protegendo o custo da dívida contra a volatilidade da Selic 

Andres Montelva
Por Andres Montelva
Valdoir Slapak

Uma empresa contraiu um financiamento relevante e de longo prazo, indexado a uma taxa pós-fixada, atrelada à variação da Selic, em um momento em que os juros básicos da economia estavam historicamente baixos. Nos dois anos seguintes à contratação, sucessivas altas consecutivas da taxa básica praticamente dobraram o custo mensal do serviço dessa dívida, comprometendo a margem operacional da empresa sem que nenhuma decisão interna equivocada tivesse sido tomada: o problema estava inteiramente concentrado na exposição não protegida a um risco que a empresa sequer havia formalmente reconhecido como tal.

Com esse cenário em mente, Valdoir Slapak, executivo com atuação em administração, finanças, reestruturação empresarial e gestão estratégica, vem para comentar mais sobre como proteger o custo da dívida contra a volatilidade da Selic. Confira a seguir!

Como o risco de juros pega as empresas de surpresa?

O risco de taxa de juros afeta especialmente empresas com dívidas indexadas a taxas pós-fixadas, como o CDI ou a própria Selic, cujo custo varia conforme decisões de política monetária tomadas pelo Banco Central, fora do controle direto de qualquer empresa individual. Esse tipo de exposição costuma ser subestimado justamente em períodos de juros baixos, quando o custo aparentemente reduzido da dívida gera a falsa sensação de que essa condição permanecerá estável ao longo de todo o prazo do financiamento contratado. 

Conforme alude Valdoir Slapak, as empresas que contraem dívidas de longo prazo justamente nesses momentos específicos de juros historicamente baixos costumam ser as mais surpreendidas quando o ciclo econômico se inverte e a taxa básica retoma trajetória de alta consistente e prolongada.

O que é o swap de taxa de juros?

O swap de taxa de juros é o instrumento financeiro mais utilizado e conhecido para gerenciar esse tipo de risco, permitindo que a empresa troque, de forma contratual, o fluxo de pagamentos pós-fixados de sua dívida por um fluxo de pagamentos pré-fixados, travando previamente e com segurança o custo financeiro que arcará ao longo do período contratado, independentemente de para onde a taxa básica de juros se mover posteriormente. Essa operação, geralmente contratada junto a instituições financeiras especializadas e bastante experientes nesse tipo de derivativo, não altera o contrato original de dívida, mas cria uma operação financeira paralela que neutraliza, total ou parcialmente, a exposição à variação da taxa.

Valdoir Slapak
Valdoir Slapak

Como pontua Valdoir Slapak, a decisão de contratar um swap de taxa de juros deveria considerar não apenas a expectativa sobre a direção futura dos juros no mercado, mas principalmente a capacidade da empresa de absorver, sem comprometer sua operação, um cenário de alta expressiva e prolongada da taxa básica. Empresas com margens apertadas e dívida relevante e significativa, para as quais um aumento significativo no custo financeiro representaria risco real à continuidade do negócio, tendem a ter justificativa mais forte para travar essa exposição do que empresas com maior folga financeira e caixa disponível.

Proteção total, parcial ou nenhuma

A decisão de proteger integralmente, parcialmente ou não proteger a exposição à taxa de juros costuma envolver um equilíbrio entre o custo da proteção e a redução da volatilidade que ela proporciona ao fluxo de caixa futuro da empresa. Empresas que optam por proteger apenas parte de sua dívida, mantendo o restante exposto à variação da taxa, tentam equilibrar cuidadosamente a busca por previsibilidade com a possibilidade de se beneficiar caso as taxas de juros efetivamente recuem ao longo do período do financiamento contratado. Essa proteção parcial, embora exija critério técnico apurado e experiência prática para definir o percentual ideal a ser travado, costuma representar solução intermediária razoável para empresas que não desejam abrir mão completamente da possibilidade de ganho caso o cenário de juros se torne mais favorável no futuro.

Volatilidade nos resultados e visão consolidada

Empresas que negligenciam esse tipo de proteção tendem a apresentar maior volatilidade em seus resultados financeiros trimestre após trimestre, observa Valdoir Slapak, executivo com atuação em administração, finanças, reestruturação empresarial e gestão estratégica, dificultando o próprio planejamento orçamentário e a previsibilidade de indicadores como margem líquida, que passam a depender significativamente de decisões de política monetária completamente alheias à gestão operacional do negócio.

Monitorar a exposição consolidada da empresa a taxas de juros variáveis, considerando o conjunto de suas dívidas contratadas em diferentes momentos e condições de mercado, permite decisões de proteção mais bem fundamentadas do que a análise isolada de cada contrato individualmente. Por fim, esse tipo de visão consolidada e integrada, quando incorporada à rotina de gestão financeira, transforma um risco frequentemente ignorado em uma variável ativamente gerenciada, com impacto direto na previsibilidade dos resultados financeiros da empresa ao longo dos ciclos econômicos seguintes.

 

Compartilhe esse Artigo
Deixe um Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *