O calor pode representar um desafio maior para corredores do que a temperatura indicada no aplicativo de previsão do tempo sugere. Um estudo publicado em 23 de março de 2026 no British Journal of Sports Medicine analisou dados de 4.938 atletas e concluiu que os índices ambientais usados para orientar competições ainda não conseguem prever com precisão quais participantes desenvolverão problemas graves relacionados ao calor.
A pesquisa avaliou 80 provas organizadas pela World Athletics entre 2019 e 2024. Foram consideradas modalidades de endurance, como maratona, marcha atlética, cross-country, corrida de trilha e outras provas de longa distância. O levantamento observou episódios de exaustão pelo calor, abandonos e atendimentos médicos registrados durante os eventos, segundo dados reunidos no PubMed.
Risco aumentou quando o WBGT passou de 28 °C
Entre os principais resultados, os pesquisadores identificaram uma frequência média de oito casos de insolação por esforço a cada mil atletas. Quando o índice de temperatura de bulbo úmido e globo, conhecido pela sigla WBGT, ultrapassou 28 °C, a taxa subiu para 16 casos por mil participantes.
O WBGT é utilizado em diferentes contextos esportivos para reunir o efeito de variáveis ambientais sobre o estresse térmico. A medida considera mais do que a temperatura do ar, mas o estudo indica que ela, sozinha, não oferece uma previsão suficientemente precisa para determinar quais atletas enfrentarão uma emergência relacionada ao calor.
A associação foi particularmente relevante em provas de endurance, nas quais o exercício se prolonga por muito tempo e exige esforço contínuo. Maratonas, corridas de trilha e provas de marcha atlética combinam duração elevada, ritmo sustentado e exposição prolongada ao ambiente, fatores que podem aumentar a sobrecarga térmica do organismo.
Temperatura do ambiente não explica todo o risco
O estudo também avaliou a temperatura radiante média, que representa a influência do calor emitido pelo entorno, incluindo a exposição à radiação solar. Esse indicador apresentou associação mais forte com a ocorrência de insolação por esforço do que o WBGT. Mesmo assim, sua capacidade de previsão permaneceu limitada.
Na prática, isso significa que observar apenas a temperatura do ar ou um único índice de calor pode fornecer uma visão incompleta das condições de uma corrida ou de um treino ao ar livre. Um percurso sem sombra, por exemplo, pode impor uma carga térmica diferente de outra rota com a mesma temperatura registrada, especialmente quando a atividade dura várias horas.
Para corredores amadores, praticantes de trail running e pessoas que treinam em parques, estradas ou áreas abertas, a mensagem central é que o risco de calor depende da combinação de fatores. Temperatura, umidade, radiação solar, ritmo, duração do exercício, hidratação e adaptação individual atuam conjuntamente, e não de maneira isolada.
Aclimatação deve fazer parte do planejamento
Os autores recomendam que avaliações futuras incorporem características individuais dos atletas. Entre os fatores citados estão a aclimatação ao calor e a ocorrência de doenças recentes. Isso ajuda a explicar por que duas pessoas submetidas às mesmas condições ambientais podem apresentar respostas diferentes durante uma prova ou sessão de treinamento.
A aclimatação é especialmente relevante para quem viaja para competir em locais mais quentes ou muda de rotina entre estações do ano. A falta de adaptação pode dificultar a resposta do corpo ao ambiente, enquanto o esforço prolongado mantém a produção de calor elevada durante mais tempo. Por isso, a preparação não deve considerar apenas pace, quilometragem e altimetria.
O resultado não significa que o WBGT seja inútil. O índice continua sendo uma referência para identificar condições potencialmente desfavoráveis e apoiar decisões de organização, como ajustes de horário e medidas de segurança. A conclusão do trabalho é que ele não deve ser interpretado como uma ferramenta capaz de prever individualmente todos os casos de insolação por esforço.
Pesquisa sobre calor ganha espaço no esporte
A necessidade de compreender melhor a resposta humana ao calor também aparece em iniciativas acadêmicas voltadas à segurança esportiva. Em 18 de maio de 2026, a University of North Florida anunciou a abertura do Perry Weather Heat Lab, laboratório dedicado ao estudo do calor, da termorregulação e do exercício em ambientes extremos.
De acordo com a University of North Florida, o espaço realiza testes controlados para investigar respostas fisiológicas ao exercício em condições de calor. As pesquisas envolvem estratégias de aclimatação, hidratação, nutrição e uso de dispositivos vestíveis, temas diretamente relacionados à prevenção de riscos em atividades esportivas.
Enquanto novos modelos são desenvolvidos, corredores devem tratar os índices meteorológicos como uma referência, não como uma garantia de segurança. Em provas longas e treinos sob sol intenso, a decisão de reduzir o ritmo, interromper a atividade ou buscar atendimento diante de mal-estar deve considerar as condições do ambiente e a resposta do próprio corpo. O estudo reforça que nenhuma métrica isolada substitui o acompanhamento das condições da prova, da preparação individual e dos sinais apresentados durante o exercício.
