Pesquisas mostram que alimentos ultraprocessados seguem mais baratos que os in natura, e especialistas explicam o que muda esse cenário
A dúvida é recorrente entre quem tenta seguir uma rotina alimentar mais saudável: por que um pacote de biscoito recheado ainda custa menos do que uma bandeja de frutas frescas? Estudos conduzidos por pesquisadores brasileiros, com apoio do projeto Alimentando Políticas, indicam que essa diferença de preço tende a se manter por mais alguns anos, mesmo com o avanço das discussões sobre tributação de produtos ultraprocessados. As projeções mostram que os alimentos in natura ou minimamente processados devem ficar mais caros ao longo da década, enquanto os preços dos ultraprocessados caminham na direção oposta. Esse descompasso ajuda a explicar por que, apesar do discurso sobre alimentação saudável ganhar espaço nas redes sociais e na medicina, a prática segue distante da realidade de boa parte da população. Entender os fatores econômicos por trás dessa equação é o primeiro passo para quem busca mudar de fato a própria alimentação. Idec
O que torna o ultraprocessado mais acessível que o alimento in natura
A explicação para essa distorção de preços está ligada à própria cadeia de produção desses alimentos. Produtos in natura dependem de sazonalidade, clima, logística de transporte refrigerado e perdas ao longo do trajeto entre o campo e o supermercado, fatores que encarecem o preço final ao consumidor. Já os ultraprocessados são fabricados em larga escala, com ingredientes de baixo custo como açúcar, óleo vegetal refinado e amido, o que permite preços mais competitivos e prazo de validade muito mais longo. Essa lógica industrial faz com que, em termos de custo por caloria, um pacote de salgadinho costume sair mais barato do que uma porção equivalente de legumes ou frutas frescas.
O Ministério da Saúde, por meio do Guia Alimentar para a População Brasileira, recomenda que alimentos in natura ou minimamente processados sejam a base da dieta, incluindo frutas, verduras, legumes, grãos, raízes, tubérculos, leite, ovos e carnes. A orientação oficial reforça que esses grupos fornecem fibras, proteínas, vitaminas e minerais essenciais, mas reconhece que o acesso a eles não é uniforme entre as diferentes faixas de renda. Pesquisadores que estudam o tema defendem a criação de políticas fiscais voltadas a equilibrar essa balança, como a tributação adicional sobre produtos com alto teor de açúcar, sódio e gordura, somada a incentivos para baratear frutas, verduras e legumes. Sem esse tipo de intervenção, a tendência apontada pelos estudos é que a alimentação saudável continue exigindo um esforço financeiro maior do consumidor comum.
Como driblar o preço e manter uma rotina alimentar equilibrada
Diante desse cenário, nutricionistas costumam recomendar estratégias práticas que ajudam a reduzir o impacto no orçamento sem abrir mão da qualidade nutricional. Comprar frutas e verduras da estação costuma ser mais barato, já que a oferta maior reduz o preço no varejo. Feiras livres e sacolões tendem a praticar valores menores do que supermercados para os mesmos itens, além de oferecerem produtos mais frescos. Outra alternativa é priorizar grãos, leguminosas e ovos, que têm boa relação entre custo e valor nutricional e podem substituir parte do consumo de carnes mais caras sem comprometer o aporte de proteína.
O médico nutrólogo Celso Cukier, do Hospital Israelita Albert Einstein, destaca que mudanças de hábito alimentar precisam ser construídas aos poucos e com base em evidências científicas, evitando dietas restritivas demais, que costumam ser abandonadas rapidamente. Segundo o especialista, mudanças no estilo de vida devem se apoiar em evidências científicas para garantir resultados duradouros. Planejar as refeições da semana, evitar compras por impulso e dar preferência a preparações caseiras em vez de pratos prontos também são medidas que ajudam a reduzir gastos com alimentação ao mesmo tempo em que melhoram a qualidade nutricional do prato. Esses pequenos ajustes de rotina, somados, têm impacto relevante tanto na saúde quanto no bolso ao longo dos meses. CNN Brasil
O papel da informação na escolha do consumidor
Além da questão financeira, a desinformação nas redes sociais aparece como um obstáculo adicional para quem deseja melhorar a alimentação. A popularização de dietas da moda e de soluções chamadas de milagrosas costuma confundir o consumidor, que se vê diante de promessas rápidas sem respaldo científico. Especialistas reforçam que não existe alimento ou suplemento isolado capaz de substituir uma alimentação equilibrada, e que o caminho mais seguro passa por orientação profissional individualizada, especialmente para quem tem alguma condição de saúde pré-existente.
Pesquisas recentes na área de nutrição também têm explorado o conceito de nutrição personalizada, que utiliza dados individuais para orientar escolhas alimentares mais adequadas ao perfil de cada pessoa. Ainda assim, especialistas que estudam o tema alertam que essas ferramentas não devem substituir o acesso básico a alimentos saudáveis e baratos, e que políticas públicas seguem sendo o caminho mais eficaz para reduzir desigualdades nutricionais em larga escala. Para o consumidor no dia a dia, a recomendação prática continua sendo a mesma: priorizar o que é in natura, reduzir o ultraprocessado e buscar orientação de um nutricionista sempre que possível, já que cada organismo responde de forma diferente às mudanças na dieta.
A diferença de preço entre alimentos saudáveis e ultraprocessados ainda pesa no bolso do brasileiro, mas não impede que pequenas mudanças façam diferença na rotina. Planejamento de compras, atenção à sazonalidade dos alimentos e desconfiança em relação a soluções milagrosas seguem sendo as armas mais eficazes contra esse desequilíbrio. A combinação entre orientação profissional e bom senso na hora de montar o carrinho de compras tende a aproximar o consumidor de uma alimentação mais equilibrada, mesmo em um cenário econômico que ainda favorece o produto industrializado.
Fontes consultadas:
https://www.cnnbrasil.com.br/saude/como-adotar-uma-alimentacao-realmente-saudavel-em-2026/
https://alimentandopoliticas.org.br/pesquisa/alimentacao-saudavel-sera-mais-cara-do-que-a-nao-saudavel-a-partir-de-2026/
