A destinação inadequada de resíduos sólidos urbanos é um problema que cresce junto com as cidades, mas ainda recebe menos atenção do que merece. Para o engenheiro Odair José Mannrich, que atua na área de infraestrutura ambiental há anos, o modelo atual de coleta e disposição final de resíduos já dá sinais claros de esgotamento.
O Brasil gera mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, publicado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Desse total, uma parcela significativa ainda é descartada em lixões a céu aberto ou em aterros controlados, que não oferecem as condições técnicas mínimas exigidas por lei. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, vigente desde 2010, determinou o encerramento de todos os lixões do país, mas o prazo foi sucessivamente postergado, e o problema persiste em centenas de municípios.
Ao longo deste artigo, você vai entender por que os aterros sanitários estão no centro desse debate, quais alternativas estão ganhando espaço e o que muda quando a engenharia assume protagonismo nessa equação.
Aterros sanitários: solução ou prazo de validade?
Em princípio, os aterros sanitários representam uma evolução considerável em relação aos lixões. Eles possuem impermeabilização do solo, sistema de coleta de chorume, drenagem de gases e monitoramento ambiental. Contudo, mesmo os aterros tecnicamente adequados têm vida útil limitada. Quando chegam à capacidade máxima, exigem ampliação ou a construção de novas áreas, o que envolve licenciamento ambiental, impacto territorial e custos crescentes.
Nesse cenário, a engenharia ambiental passa a desempenhar um papel cada vez mais estratégico. Não se trata apenas de construir estruturas para receber resíduos, mas de desenvolver sistemas que reduzam o volume descartado, recuperem materiais com valor econômico e transformem o que sobra em fonte de energia. Conforme aponta o engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich, a evolução do setor passa necessariamente pela integração entre gestão de resíduos, recuperação energética e planejamento urbano de longo prazo.
O potencial ignorado do biogás em aterros sanitários
Um dos aspectos menos explorados na discussão sobre aterros sanitários é a geração de biogás. A decomposição da matéria orgânica nos aterros produz metano em grandes quantidades, um gás com alto poder calorífico que, quando não é aproveitado, simplesmente é queimado ou lançado na atmosfera, agravando o efeito estufa.

A captura e o aproveitamento desse biogás para geração de energia elétrica ou térmica já são realidade em vários países e em alguns projetos brasileiros. Além do ganho ambiental, a iniciativa gera receita para os operadores do aterro e reduz a dependência de fontes de energia convencionais. Nessa mesma lógica, resíduos que antes representavam apenas custo passam a ter valor energético real.
O engenheiro Odair José Mannrich explica que esse tipo de abordagem integrada é o que diferencia projetos de infraestrutura ambiental verdadeiramente eficientes daqueles que apenas cumprem requisitos mínimos regulatórios.
Coleta seletiva, logística reversa e a pressão sobre o sistema
Outro fator que pressiona o sistema de aterros é a baixa efetividade da coleta seletiva no Brasil. Apesar dos avanços, o percentual de resíduos efetivamente reciclados ainda é muito inferior ao potencial disponível. Grande parte do material reciclável chega misturado ao lixo comum, o que inviabiliza a separação e acelera o preenchimento dos aterros.
A logística reversa, prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos para embalagens, eletrônicos, pilhas, pneus e outros materiais, também avança lentamente. Sob esse olhar, a solução não está apenas na construção de mais aterros, mas na reorganização de toda a cadeia de geração, coleta, triagem e destinação dos resíduos.
Segundo o engenheiro Odair José Mannrich, projetos de infraestrutura que não consideram essa visão sistêmica tendem a resolver o problema no curto prazo, mas reproduzem as mesmas limitações estruturais em uma escala maior.
O futuro da gestão de resíduos passa pela recuperação energética
A tendência global aponta para modelos em que os resíduos urbanos deixam de ser um passivo ambiental e passam a integrar a matriz energética das cidades. Tecnologias como a incineração com recuperação de energia, a gaseificação de resíduos e o aproveitamento do biogás já compõem estratégias nacionais de energia em países como Alemanha, Suécia e Japão.
No Brasil, o caminho ainda é longo, mas os movimentos regulatórios e os investimentos recentes indicam que o setor está em transformação. A engenharia ambiental ocupa, nesse processo, uma posição central: é ela que transforma o potencial técnico em projetos executáveis, viáveis e ambientalmente responsáveis. Conforme finaliza e ressalta o engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich, a gestão de resíduos do futuro será, inevitavelmente, uma gestão de recursos.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
