Marcello José Abbud aponta que fechar lixões é uma das promessas mais repetidas da gestão de resíduos no Brasil, e uma das menos cumpridas. A explicação usual culpa a falta de dinheiro. Os grandes desafios do RSU nascem menos da escassez de recursos do que de erros de gestão que se repetem, quase idênticos, de município em município.
Reconhecer o padrão é o primeiro passo para quebrá-lo. Cinco erros aparecem com tanta constância que funcionam como diagnóstico: quem os identifica na própria cidade já sabe, em boa medida, por onde as soluções precisam começar. Vale percorrê-los um a um.
Erro um: tratar o resíduo como despesa, e não como sistema
Marcello José Abbud destaca que o primeiro erro está na natureza do gasto. Na maioria dos orçamentos municipais, o resíduo aparece como despesa de limpeza urbana: paga-se para que o lixo suma da rua, e o assunto termina aí. Sistemas que funcionam operam com outra lógica, a do serviço estruturado, com fonte própria de custeio, contratos de longo prazo e metas de destinação. Sem sustentação financeira específica, qualquer avanço dura até a próxima crise de caixa, quando volta a valer o improviso.
A legislação do setor já indica esse caminho ao exigir sustentabilidade econômica para o serviço. O que falta, com frequência, é decisão política para aplicá-la, porque cobrar pelo manejo do resíduo é impopular no curto prazo e indispensável em qualquer horizonte mais longo.
Erro dois: planejar pelo mandato, não pelo ciclo do resíduo
O segundo erro é temporal. Uma usina de tratamento, um aterro sanitário bem operado ou um programa de coleta seletiva maduro levam anos para sair do papel e décadas para dar retorno completo. O mandato de quem decide dura quatro. O resultado é conhecido: projetos abandonados na troca de governo, licitações reiniciadas do zero e obras inauguradas pela metade, porque o cronograma seguiu o calendário eleitoral em vez do ciclo do resíduo.
Marcello José Abbud elucida que esse descompasso é o mais silencioso dos cinco erros, porque ninguém o assume: nenhum plano municipal declara que vale só até a próxima eleição. A saída passa por instrumentos que sobrevivem a governos, como consórcios, contratos de longo prazo e planos com metas vinculantes.

Erro três: coletar bem e tratar mal, o desequilíbrio central do RSU
Marcello José Abbud pontua que a realidade se manifesta em municípios de diversas dimensões: caminhões modernos, rotas meticulosamente planejadas, ruas impecavelmente limpas, e todo o material coletado sendo direcionado para um lixão a céu aberto. A coleta é eficiente; o destino, por outro lado, é problemático. Este é o terceiro erro, e possivelmente o mais evidente entre os desafios do Resíduo Sólido Urbano (RSU): avaliar o sucesso do serviço com base no que é retirado da calçada, enquanto o verdadeiro impacto ambiental é determinado no ponto final de descarte. Coletar adequadamente um resíduo que é mal destinado apenas organiza a questão, mas não a resolve de fato.
Erro quatro: enfrentar o problema sozinho
Escala é o quarto ponto cego. Municípios pequenos dificilmente sustentam sozinhos uma estrutura adequada de destinação, e a tentativa de fazê-lo produz soluções precárias ou contratos impagáveis. Consórcios intermunicipais existem justamente para dividir esse custo, e a resistência a eles, observa Marcello José Abbud, raramente é técnica: é política, ligada à partilha de decisões e à disputa por visibilidade entre gestões vizinhas.
O consórcio muda a equação porque transforma volume disperso em demanda concentrada, o que viabiliza infraestrutura que nenhum dos participantes bancaria sozinho, de aterros regionais a usinas de tratamento e valorização. É a diferença entre vinte problemas pequenos sem solução e um problema grande com escala para atrair investimento.
Erro cinco: deixar a população de fora da conta
Marcello José Abbud resume que o quinto erro sabota todos os anteriores. Coleta seletiva anunciada sem educação ambiental consistente produz o resultado conhecido: adesão baixa, material contaminado e o programa desacreditado em poucos meses. O morador não é obstáculo do sistema, é parte dele: é na pia da cozinha que a triagem começa ou fracassa. Ignorar essa ponta transforma qualquer investimento em infraestrutura numa aposta incompleta.
A correção é menos glamourosa do que uma usina nova e mais barata do que qualquer obra: comunicação constante, escolas envolvidas, cooperativas de catadores integradas ao sistema e retorno visível para quem separa. Educação ambiental não é campanha de lançamento, é rotina de anos. Onde ela existe, a infraestrutura rende; onde falta, até a melhor tecnologia opera abaixo do que poderia.
