Saúde bucal na terceira idade: Por que essa necessidade ainda é tão invisível?

Diego Rodríguez Velázquez
Por Diego Rodríguez Velázquez
Yuri Silva Portela

Um sorriso saudável não é uma questão estética. Na terceira idade, Yuri Silva Portela, explica que ele pode ser o limite entre uma alimentação adequada e a desnutrição, entre o convívio social e o isolamento, entre a autoestima preservada e o declínio emocional acelerado. Ainda assim, a saúde bucal do idoso permanece um dos temas mais negligenciados tanto nas políticas públicas quanto nas práticas familiares de cuidado.

O que está em jogo vai muito além dos dentes. Entender essa realidade é o primeiro passo para mudar o que precisa ser mudado.

Como o envelhecimento transforma a saúde bucal?

Segundo Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, com o passar dos anos, as glândulas salivares reduzem sua produção, resultando no que os profissionais chamam de xerostomia, ou boca seca. A saliva tem função muito mais ampla do que umedecer a boca: ela neutraliza ácidos, combate bactérias, facilita a deglutição e protege o esmalte dentário. Sua redução cria um ambiente propício à cárie radicular, à doença periodontal e às infecções fúngicas.

O uso prolongado de múltiplos medicamentos, comum na terceira idade, agrava esse quadro de forma significativa. Anti-hipertensivos, antidepressivos, diuréticos e ansiolíticos estão entre os grupos farmacológicos que mais reduzem o fluxo salivar. Um idoso polimedicado, portanto, apresenta risco bucal muito superior à média, independentemente de seus hábitos de higiene.

A mobilidade limitada, tremores e dificuldades motoras impõem barreiras físicas à higiene bucal adequada. Segurar uma escova de dentes corretamente, manipular fio dental ou usar enxaguante bucal tornam-se tarefas complexas para quem convive com artrite, Parkinson ou sequelas de AVC. Tal como menciona o Dr. Yuri Silva Portela, o cuidado que parece simples, exige adaptação que raramente recebe a devida atenção.

Quais são as consequências sistêmicas da saúde bucal negligenciada?

A relação entre saúde bucal e saúde geral é bidirecional e bem documentada. Bactérias presentes em focos de infecção periodontal podem migrar para a corrente sanguínea e alcançar o coração, os pulmões e o cérebro. Em idosos com imunidade reduzida, esse caminho se torna especialmente perigoso. Estudos associam a doença periodontal grave ao aumento do risco de infarto, pneumonia aspirativa e comprometimento cognitivo.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

A perda dentária, quando não tratada com próteses adequadas, altera profundamente a alimentação. O idoso que não consegue mastigar corretamente tende a eliminar proteínas, vegetais crus e alimentos fibrosos da dieta, optando por preparações pastosas com menor valor nutricional. De acordo com o doutor Yuri Silva Portela, essa mudança alimentar silenciosa contribui para a sarcopenia, queda de imunidade e fragilidade geral, criando um ciclo difícil de romper.

O acesso à odontologia como questão de dignidade

No Brasil, o acesso a serviços odontológicos privados é proibitivo para grande parte da população idosa. As filas no sistema público são longas, os procedimentos disponíveis são limitados e o atendimento domiciliar, fundamental para idosos acamados ou com dificuldade de locomoção, é praticamente inexistente fora de iniciativas pontuais. Esse vazio estrutural transforma a saúde bucal em privilégio, destaca o doutor Yuri Silva Portela.

Iniciativas sociais que incluem dentistas em equipes multidisciplinares de atendimento comunitário preenchem parte dessa lacuna, levando tratamentos preventivos e curativos a populações que dificilmente chegariam a um consultório. A dentição não é luxo. É condição para comer, falar, sorrir e participar da vida.

Por fim, Yuri Silva Portela ressalta que a conscientização das famílias é igualmente importante. Incluir a higiene bucal na rotina de cuidados do idoso dependente, verificar periodicamente o estado das próteses e observar sinais de dor ou desconforto na boca são atitudes simples com impacto real na qualidade de vida. O que se ignora na boca frequentemente cobra preço no resto do corpo.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

Compartilhe esse Artigo
Deixe um Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *